contos sem conta

Tudo cabe num conto. Tudo se conta. Menos o que não faz de conta. Porque a vida só contável é que se torna credível. Ganha vida. A vida sem vida não se conta, desconta-se. E o acto de descontar muitas vezes é um fazer de conta. Por vezes faço de conta que não sou eu. E quando sou eu não conto. E quando conto não sei o que fazer do eu. Há tanto infinito para abraçar...

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Localização: Portugal

Eu sou, eu quero ser, o que não se resume a um eu. Quero ser o que se me der. Se o mar vier até mim, quero ser o mar. Se o vento me vier animar por dentro, quero ser o vento. Se o verde das serras me presentear com os seus aromas de rosmaninho e de sarça ardente, quero ser cada uma das serras... E quero conseguir deixar sempre o ego pendurado no armário das coisas inúteis. Serve para quê? Para separar, para colocar pontos finais, margens sem nexo, na vida que, no seu âmago, não tem limites.

segunda-feira, fevereiro 20, 2006

A lotaria dos miseráveis

A sua respiração ainda era ofegante. Sentia o coração, desde há muitos anos silencioso, parecia um relógio de parede acelerado. E os ouvidos continham um zumbido de excitação.
Ainda tinha nas mãos o pequeno rádio de pilhas. Apagara-o, como era seu hábito, para poupar as pilhas, depois de ouvir os pregões da lotaria do Natal.
Mas queria crer que tinha ali, na caixa metálica que se escondia no canto do quarto, num buraco do chão de terra batida, uma fracção premiada com o primeiro prémio. Como era costume todos os natais, o João da venda dera-lhe o bilhete duma fracção da lotaria, em troca de meia dúzia de biscates. Manuel Terêncio fazia essas coisas com prazer, eram parte da sua época natalícia e o João, seu amigo de infância, de vez em quando dava-lhe umas roupas usadas, umas garrafas de vinho ou de aguardente, que o ajudavam a prevenir as gripes de inverno, e, de vez em quando um prato de sopa ou uma refeição, resgatada das sobras da clientela.
Nesse ano Manuel tinha-se entretido a arranjar a fechadura da porta principal da velha taberna. Desmontara-a e limpara-a com cuidado. Depois de oleada e afinada, ficara como nova. E também tinha arranjado parte da canalização da casa de banho dos clientes, servida por uma sanita e um lavatório mínimo e já muito escurecido pelos anos sucessivos de uso. O preço do bilhete não chegaria, de certo, para pagar esses trabalhos se executados por mãos profissionais. Por isso, estava fora de questão uma possível partilha do prémio. Havia ainda a hipótese do João da venda ter ficado com o resto da cautela, ficando assim mais rico do que quem tinha só uma fracção.
Manuel sabia que a sua fracção iria receber um prémio elevado. Nesse ano a lotaria dava um prémio recorde, mais de três milhões de contos. A Santa Casa da Misericórdia tinha feito um protocolo com a lotaria espanhola, o que tinha engordado os prémios.
Mas o João teria ficado com alguns dos bilhetes premiados? Já tinha passado uma hora da divulgação dos resultados e não se ouvira um ai. A venda do João ficava na mesma rua da velha adega onde Manuel tinha a sua habitação. Era uma divisão de pouco mais de 15 metros quadrados, de construção rústica e pejada de velharias que o velho maltrapilho recolhia pelos cantos do mundo que ele percorria a pé à cata de coisas recuperáveis. Era uma mente recolectora, compulsiva e misantrópica. Vivia naquele tugúrio herdado dum tio que teve uma vida semelhante, de solteirão e excêntrico, amante da solidão e avesso a banhos e a hábitos civilizados, que ele considerava como sinais de degradação moral. Aquelas gentes, outrora trabalhadoras e sadiamente campestres viviam agora os luxos da vida dita moderna que, da capital, irrompiam em vagas cada vez mais tumultuosas, na pacatez da aldeia e levavam as pessoas a assumir hábitos estranhos à pureza original.
Até o padre se dava a inovações. Projectava filmes na igreja e deixava a canalha cantar na missa com acompanhamento à espanhola. O som das violas parecia um insulto comparável à invenção caprichosa dos italianos que impuseram a missa em Português. O latim tinha outra atmosfera nas missas de antigamente. As pessoas viviam mais o culto, pelo menos andavam na linha e eram submissas. Sob o peso arredondado das missas daqueles tempos, cada um sabia que havia lugar para todos debaixo do sol.
E se o João não ganhou nada? A venda estava apinhada de gente quando a televisão transmitiu o sorteio da lotaria. Manuel teve mesmo que colar o rádio à orelha para poder ouvir com precisão os números da sorte. O marulhar das vozes curiosas e alegres com o feriado de algumas horas, uma sadia ruptura dos hábitos de trabalho da aldeia, abafava o som rouco da televisão. Depois do sorteio, o silêncio. O ajuntamento debandou de volta à normalidade da vida do campo. E a partir daí só se ouvia o som mamóreo dos jogadores de dominó que, como era hábito, batiam com as peças do jogo no tampo das mesas. De vez em quando baralhavam-nas com um barulho de caos e expectativa.
Seria possível que o João, sempre atento aos ganhos monetários, que não perdoava às velhas beatas os 50 escudos de taxa por lhes descontar o cheque da reforma, teria deixado escapar-se-lhe da memória o número do bilhete que lhe tinha oferecido? E podia dar-se o caso de não ter mais bilhetes daquela cautela? Na aldeia só se vendiam umas 3 cautelas completas. Uma era comprada pelo padre Libório que há mais de quinze anos angariava dinheiro para restaurar a igreja. Outra ia direitinha para o senhor doutor sacramento que queria acabar os seus dias longe daquela rotina de médico gordo de província. E por vezes a malta dos copos juntava-se para comprar uma cautela. Sendo assim, o João ficava com as sobras doutros estabelecimentos da zona de Coimbra e chegava à véspera do sorteio com alguns bilhetes desgarrados com os quais, depois de satisfazer a procura da sua clientela, tentava a sorte. Teria sido dessa carteira de refugo que tinha saído o bilhete que lhe tinha calhado em sorte? Manuel sorria ao antever esta possibilidade. E talvez o João não tivesse prestado atenção ao número. Ou tivesse descartado um número com que antipatizava. Quem sabe...
Aquele dinheiro vindo do céu era uma confirmação da justeza da sua vida. Uma vida de quase reclusão. Sem amores e sem dissabores. Sempre fugira a possíveis namoradas. Havia qualquer coisa nas mulheres que lhe trazia negrume à alma. Embora as velhas mais arrebitadas se lembrassem com alguma ternura da sua figura esbelta de jovem ensimesmado. Mesmo sem o saber, tinha acendido paixões e alimentado a imaginação adolescente de muitas virgens sonhadoras com as florações da carne. Mas as mulheres, na sua visão muito geométrica do mundo, muito geocêntrica e concertada, não pareciam ter uma relação muito sadia com o dinheiro. Parecia que não se satisfaziam com a sua posse. E eram uma porta aberta para os filhos, bocas sempre abertas e esfomeadas. Não, essa vida de chefe de família nunca o seduzira. Ser pai para ele ela algo que lhe parecia demasiado sombrio, demasiado violento. Não gostava de crianças, mas era impensável dar-lhes porrada sempre que fosse necessário. Antes deixá-las passar ao largo.
O que nem sempre era fácil. Davam-lhe alcunhas. Apedrejavam-no na horta, que ficava no caminho para a escola, maldita sina. Chamavam-lhe Manuel das botas, por causa dos botins pretos que usava sempre, de inverno ou de verão. E, desde há uns tempos, havia outra alcunha que lhe era mesmo insuportável, cabra alta. "Olha o cabra alta!" Era obrigado a ouvir quando a canalha o avistava ao longe. E ele sabia que essa alcunha tinha agradado na aldeia. Melhor seria ser conhecido por Manuel das botas, nisso não havia insulto. E na aldeia as alcunhas tinham mais propriedade que os nomes próprios.
O Pedro Trinta era um exemplo disso mesmo, não era Pedro de Baptismo, o nome vinha dum avô que tinha comprado o são Pedro que ainda adornava, velho e cheio de fungos, um dos nichos mais recônditos da igreja. Os mais velhos acharam-lhe parecenças, pela feiura disforme, com esse seu avô. E trinta, era alcunha de família. Uma sua antepassada já meio sumida nas brumas da memória da história dos esquecíveis, tinha sido abordada por trinta soldados franceses em tempo de invasão. Assim nascera a família dos trinta, por afinidade, pois, segundo parece, a infortunada senhora tinha recolhido a um convento. Onde se finou sem mais notícia.
Estava fora de questão dar a conhecer a sua sorte ao resto da aldeia.
Receber o prémio seria uma empresa bem complicada. Havia uma série de procedimentos que talvez despertasse a curiosidade dos vizinhos, tão ávidos de novidade dada a placidez da vida ali naquele recanto de Portugal.
O bilhete de identidade estava caducado. Não tinha número de contribuinte. Nunca tratara dos papéis para a reforma para não atrair sobre si a atenção do Estado. Achava que alguém poderia lembrar-se de o obrigar a conformar-se com o viver já mais domesticado das outras gentes. E se calhar havia alguns impostos que lhe poderiam ser extorquidos.
E não tinha, como é óbvio, conta bancária.
Havia, no entanto, um pecúlio de monta, bem enterrado no tal buraco onde jazia o bilhete da taluda. Eram mais de cinco mil contos em notas de todos os feitios, muito amarrotadas e com cheiro a mofo. Mas o cheiro a dinheiro, uma mistura de incenso e camomila, estava bem impregnado nas notas. O único problema era a troca das notas quando os políticos de Lisboa resolviam retirá-las de circulação. Isso era sempre uma carga de trabalhos. Tinha que enrolar as notas em perigo de nadificação, em sacos de plástico e largar-se à aventura de ir suficientemente longe para não dar a conhecer os vestígios do seu pecúlio.
Agora a empresa seria sobre-humana. Como conseguiria trazer para ali mais de trezentos mil contos? E aquele chão seria suficiente para guardar tanto dinheiro? E como trazer tantas notas para ali? E se o João soubesse do prémio e se tivesse calado? Seria capaz de tentar alguma coisa fora do normal para reaver o bilhete? Talvez procurasse trocá-lo por outro sem prémio.
Sair estava, por enquanto, fora de questão. Mas o diabo é que a viúva do Zé Bonito lhe tinha prometido o jantar em troca do arranjo do ferro de engomar que deixara de aquecer. Se ele não aparecesse talvez a velha alcoviteira viesse ali assuntar. Era muito inconveniente essa possibilidade. E na verdade ninguém conhecia o paradeiro da caixa de folha enterrada bem ali ao canto, debaixo dum monte de tralha, sabiamente disposto de forma displicente. Mas tinha que passar em frente da venda do João. Este estaria, como sempre, debruçado sobre o balcão olhando para as pedras negras da rua. Era um hábito enraizado naquela mente ruminadora. Não lhe escapava vivalma. E essa sua atenção servia de chamariz. E grão a grão...
Ir pelo outro lado da rua era impensável, pois a casa do João da venda ficava mesmo ao fundo da rua, a taberba estava num extremo, a casa no outro. Essa rua era o centro da atenção da família da venda. Oito pares de olhos sempre à coca. Passar pelo outro lado era despertar a atenção vigilante e solícita desses servidores do povo. O que fazer?
Quando passou pela porta da venda reparou que lá dentro estava tudo apagado. A penumbra era muito densa. O João não tinha a televisão acesa como de costume. E não trovejou "óh Manel!!!", como era seu hábito desde quando brincavam juntos na meninice já há muito transcorrida.
Aquilo era estranho. O João adorava o concurso que dava ao fim da tarde. As suas gargalhadas desdentadas ouviam-se à distância de muitos passos. Será que ali havia gato?
Seria aquilo sintoma de congeminação?
Nas trazeiras da venda estava o espaço vazio do velho táxi com que João atendia às necessidades da aldeia em termos de transporte. Saira com o carro... Porquê?
Ao chegar a casa da viúva ficou na posse de todos os detalhes. As velhas beatas do costume, enroladas nos seus xailes de franjas maltratadas, desfiavam a ladainha da infelicidade da pobre, levada à pressa pelo senhor João, com os olhos revirados e a espumar pela boca. Tinha-lhe dado uma solipampa quando colhia hortelã para a canja. E que bem que cheirava a canja apressadamente deixada ao lume. Pena que fique por provar, mas há urgências maiores que as exigências do estômago dum velho descompassado com a vida dos demais.
Deixou-se ficar na orla das conversas e retirou-se furtivamente. Era tempo de agir.
Podia agarrar no bilhete premiado e dar o salto até à sede do concelho. A bicileta ferrugenta conseguiria dar conta do recado numas duas horas de pedalada calma, pois o caminho era sempre a direito. E se a noite caísse no caminho, podia recolher-se nalgum abrigo dos caçadores, havia muitos dispostos ao longo do caminho, nas margens do rio. No dia seguinte podia inventar uma história credível. Tinha sobrinhos em Lisboa e podia ir dar notícia ao João dalgum infortúnio familiar. Bastava gastar algum dinheiro nos correios. Um telefonema era o suficiente. Escondia a bicicleta debaixo de alguma moita, como fazia muitas vezes. E apanhava o comboio para o Porto. Aí tinha um primo frade que podia dar-lhe guarida por uns dias. O tempo suficiente para descobrir o que fazer quanto ao prémio da lotaria. Inventaria uma consulta médica. O primo não estranharia porque não conhece a sua saúde de ferro e a sua aversão aos médicos, seres meio enfeminados e ganaciosos, sempre prontos a trocar por notas sonantes umas apalpadelas aqui e ali, por entre resmungos sobre a falta de higiene do paciente.
Meteu-se em casa. Fechou a única porta à chave e meteu a tranca na porta. Como a adega não tinha janelas, estava seguro da sua inteira privacidade.
Retirou o ferro-velho que tapava o secreto esconderijo da sua fortuna. Cavou com uma colher de pedreiro. Depressa encontrou a pedra que servia de tampa ao buraco. Retirou-a e ficou sem pinga de sangue! A terra retirada precipitou-se num susto para dentro do buraco, ao mesmo tempo que uma baforada de ar frio bateu na cara do velho avarento. Debaixo do chão da sua adega abria-se uma caverna, maior do que a adega, que dava para a rua que passava na lateral do pardieiro.
Os ratos tinham escavado galerias imensas no subsolo.
E a água das chuvas recentes, torrenciais e diluvianas, tinha formado uma ribeira subterrânea que abriu catacumbas incógnitas por baixo das casas.
Desesperado, Manuel precipitou-se pelo buraco, com uma lanterna a pilhas que usava quando ia regar à noite com a água da câmara municipal. E um estrondo lamacento abanou as paredes de pedra das casas circundantes.
Passadas duas semanas, e depois de muita perplexidade das gentes da aldeia, o tal primo frade, quase da mesma idade e com ar bonacheirão, entrou com a guarda dentro da adega do velho eremita. O cenário era Dantesco. O movimento de terras não tinha causado grandes danos, mas a forma como o velho vivia era indescritível. Rodeado de lixo, apinhado no chão e pendurado no tecto, estava um catre com alguns cobertores completamente maltrapilhos. As pulgas precipitaram-se sobre as canelas sumarentas daquelas criaturas pouco curtidas pelos rigores da vida do velho rabugento. Uma mudança saborosa na rotina daquele local insalubre.
Quando os olhos dos aventureiros exploradores da miséria irracional que teve ali um cenário de mais de sessenta anos, se habituaram à osbcuridade bafienta, descobriram, sem grande surpresa, o que tinha acontecido. Um grande buraco cheio de ferro-velho abria-se num dos cantos do pardieiro. Um dos guardas apontou uma lanterna lá para dentro e, no meio dos destroços, via-se uma mão meio comida pelos ratos. O defecho daquela vida tinha ali um cenário claro e sem qualquer implicação criminal. Bastava chamar o delegado de saúde e fazer-lhe o enterro.
O frade, não conseguindo verter uma lágrima, sentiu pena daquele infeliz. E viu uma caixa de folha, esverdeada e ferrugenta, a meio caminho entre a boca do buraco e o cadáver do seu primo. Com uma sachola retirou a caixa do buraco e abriu-a. Lá dentro estavam alguns santinhos com dizeres piedosos, um rosário com contas pretas, muito gastas, uma caixa de plástico com meia-dúzia de dentes amarelos e alguns bilhetes de lotaria. O mais antigo tinha 12 anos. "Pobre diabo!" Ao pensar isto fechou a caixa e atirou-a de novo para o buraco. Ao bater na terra fofa sumiu-se, pois o solo por baixo da confusão ainda tinha muitos espaços sem preenchimento.
E o velho manuel das botas foi a enterrar numa quinta-feira chuvosa de inverno. A aldeia em peso marcou presença. Como era costume.
Ninguém encontrou o dinheiro, que estava guardado numa pequena barrica por baixo da tal caixa que folha que, como é natural, também nunca mais foi vista.

Os três castelos

Na terra das vinhas rubras, onde os reis do Norte fundearam os seus barcos alados havia uma região dominada por três montes, cada um deles com um castelo. Tratava-se da habitação dos servidores da deusa Armísia que protege os filhos da terra e lhes prepara a derradeira viagem rumo às estrelas.
Os castelos tinham as suas portas principais viradas para o mesmo lado, para o vale da Primavera Eterna, em cujo centro se acreditava que a deusa vinha, em dias que só alguns sacerdotes sabiam, colher gotas de orvalho para dar como alimento às rosas sem cor.
Os viajantes contavam histórias de virgens degoladas e tigres alados, mas era-lhes dado pouco crédito, pois aos estrangeiros estava vedado sequer pisar esse solo sagrado e àqueles que lá viviam só lhes era permitido sair do perímetro guardado pelos castelos se acompanhados por uma escolta de guardas do silêncio. Sem língua, falavam através do gume das espadas, quando não do frescor rubro dos punhais.
Cada castelo era morada de três castas superiores. E em cada um deles falava-se uma das línguas sagradas que o deus Sirvha ensinara aos primeiros homens que cultivaram a vinha. No castelo do Norte, chamado Ür Muhnir, a casa de Verão, dominava a casta dos adoradores do fogo. Cabia-lhes acender a pira sagrada nas noites de Lua cheia ou de Cahziham, a deusa dos vulcões. Eram cento e vinte os habitantes da Morada Secreta, a torre que se erguia no centro do castelo. Eram eles que comandavam as tropas do Norte no mês da Guerra e o seu nome fazia tremer até os habitantes da longínqua Estrídia.
No castelo do Sul os Servos da Lua, ou Arth Armísia, filha de Armísia, conhecidos como os guerreiros das serpentes, eram os senhores da vida e da morte. Cinquenta e sete deles comandavam as hostes da casa de Inverno, Ür Mahor, no mês da Guerra.
No outro castelo, Ür Méchor, casa do Tempo, habitavam as três castas dos cultores da sabedoria: os Etreus, estudiosos dos fenómenos celestes; os Méqueus, estudiosos dos caprichos da Lua e os Zaihireus, os que estudam as subtilezas da via do Sim. Eram estes últimos que se sacrificavam, setenta de entre eles, à frente do exército sem nome, no mês da Guerra. A sua fama de guerreiros implacáveis impediu durante vinte e quatro séculos que as terras de Armísia conhecessem qualquer invasor.
Mas no décimo primeiro ciclo da era de Ahsh, o Profeta, senhor dos três castelos depois da última guerra sagrada, os habitantes da Longría invadiram o vale da Primavera Eterna e passaram as suas espadas envenenadas por todos os viventes. Depois, cobriram as heras sagradas de palha e deitaram-lhes fogo. As rosas sem cor ficaram sem o orvalho que lhes dava vida e Artémis, junto com a sua tribo divina, deixou a terra para não mais voltar.
Hoje, passado mais de sete séculos desse tempo de horror, é difícil reconstituir os infaustos acontecimentos, pois os servos dos três castelos nada deixaram inscrito nas rochas sobre o que se passou depois da investidura do profeta e todos os documentos inscritos em superfícies perecíveis se terão perdido.
O que se sabe resulta dos relatos de dois mercadores que, visto que os guardas do silêncio tinham abandonado as torres de vigia da fronteira, ousaram dirigir-se ao castelo do Norte. Mais ninguém, mesmo depois do regresso dos dois afortunados, empreendeu tal viagem, pois aquelas terras continuavam a infundir um terror intenso por todas as regiões circunvizinhas…
Os dois mercadores deixaram o seguinte relato que, dadas as vicissitudes do tempo, nos chegou truncado. Algumas partes são difíceis de traduzir, pelo que não ousarei fazê-lo dadas as minhas limitações no que respeita à língua dos antigos Neporinos, hoje morta.
Diz assim o relato:
“Nós, Aghor e Eghor, filhos de Jehor, entrámos na região do culto da deusa do Além.
Levávamos mel e peles de leopardo, bem como adagas com punhos de marfim originárias de uma parte longínqua de África, cuja raridade as torna altamente valiosas. Sabíamos o quanto aquele povo amava a guerra, pelo que as nossas mercadorias seriam com certeza apreciadas. Mas, como vereis, estávamos longe de supor com verdade…
<…> Junto aos portões principais do castelo ardia uma fogueira, dentro duma pira circular que vinte homens não conseguiam abraçar <…>.
À cabeça traziam cestos feitos de junco entrançado duma maneira que nunca víramos. E entoavam cânticos que as suas vozes púberes tornavam ainda mais melodiosos. Na fronte tinham vestígios de uma tatuagem de uma serpente que dava a impressão de ter sido apagada com um instrumento de metal incandescente. O nosso guia disse-nos que se tratava de antigas mães dos guardas do silêncio, recém-libertadas das suas obrigações perante o Templo Maior, por ordem daquele a que chamam o Profeta, filho de Ahsh de quem herdou o nome. Os cestos vinham cheios de mãos humanas, as mãos dos que se recusaram a largar a adaga, a espada dos cavaleiros ou o arco dos arqueiros sem piedade. Não pudemos saber quantos eram esses infelizes, somente que eles iriam viver a expensas da Casa de Ishjohar que recebera ordens para que nada lhes faltasse.
Para entrarmos no castelo tivemos que nos descalçar e que envergar uma túnica branca. Todos os nossos pertences <…> Em troca recebemos a garantia de que tudo nos seria devolvido.
<…>
Só depois de duas horas e de algumas peripécias do género da anterior é que pudemos observar parte das muralhas. Tal como no exterior, elaboradíssimas pinturas cobriam as pedras. Nelas se viam cenas da vida quotidiana de um povo que mais parecia divino do que humano. E essas pinturas ainda não estavam acabadas, em muitos locais um formigueiro de homens de branco dava retoques nas figuras ainda só esboçadas, enquanto outros carregavam todo o tipo de coisas que serviam para esse fim. Havia uma alegria estampada em todos os rostos, não só dos operários, mas das pessoas com que nos cruzávamos, que a pouco e pouco nos foi contagiando, ao ponto de amiúdas vezes <…>.
Fomos apresentados a um dos sábios. Ele aproximou-se e dirigiu-se-nos na nossa língua. Falava de forma muito mais perceptível do que o nosso guia e parecia conhecer bem todos os costumes da nossa terra. Ficámos deveras espantados quando nos disse que nunca tinha transposto as muralhas do castelo. Tinha aprendido tudo isso sobre as nossas maneiras de proceder na Academia das Artes Supremas onde os mais sábios de entre os sábios inventavam continuamente mundos, histórias, catástrofes naturais, toda a sorte de coisas que moldam as civilizações e tornam única a alma dos povos. E ao estudarem ao pormenor esses mundos julgavam estar a entrar no conhecimento de todas as formas de proceder que são próprias dos mortais e de dois em dois dos nossos anos uma dessas formas de ser era escolhida para ser encenada pelas tropas alinhadas em redor do centro da terra para cumprirem a Guerra ordenada pelos deuses. Assim garantiam a invencibilidade dos exércitos dos três castelos em caso de uma improvável invasão de forças externas <…>.
Essa teria sido a última das guerras sagradas se os três exércitos se tivessem defrontado. Aquele a que chamam o Profeta, tendo sido eleito para escolher que tipo de mundos se iriam defrontar, escolheu, pela primeira vez um mesmo mundo para os três castelos. E o mundo escolhido foi o mais estranho que se possa imaginar! Nele todos os homens se deveriam respeitar como iguais, sem distinções de castas, de sexo, de raça, de condição. A nenhum homem deveria ser recusado o acesso a cargos de mando por outras razões para além do seu mérito. E a coragem consistia em não se deixar subjugar em quaisquer circunstâncias. Todos os homens eram senhores de si.
Quando soaram as trombetas dos aleutérios o exército sem nome foi o primeiro a perfilar-se na planície sagrada. Ainda brilhavam as estrelas e uma brisa adocicada veio, roçando as ervas, morder as pernas nuas dos setecentos e setenta zahireus que, como os olhos vítreos, envergavam as armaduras de fogo solidificado. Eram os únicos que cumpriam a tradição.
Ainda a cavalaria do Profeta galopava, num frémito metálico e ribombante, na direcção do centro de onde seria dada a ordem para o início das hostilidades e cada um dos zahireus, depois de beijar a lâmina do punhal da identidade, cortou a sua própria garganta.
<…>.
Quando o sol despontou no horizonte, os três exércitos eram um. As armas foram sendo atiradas para um monte, cada vez maior. Por fim o fogo selou o destino das lâminas que cantaram tantas gestas de sangue e bravura quase divina.

«Se és tu próprio
Não és ninguém,

Se és ninguém,
És a semente,

Se és a semente,
Serás a consumação,

Se fores a consumação
Serás tu próprio.

Refrão:
O punhal não irrompe da vontade,
Do punhal a vontade,
Irrompe sem razão.».

Aquela região, outrora fértil e abundante em animais e gente, hoje é um deserto cuja aridez é demasiado inclemente mesmo para aqueles que, em sonhos, nele se aventuram.”

Rita e a voz do mar

Rita, nome fictício, como são todos os nomes antes de se ancorarem na carne de quem os recebe, estava sentada à beira da falésia. Seguia o voo das gaivotas com o olhar límpido, perdido além do tempo e do espaço de estar ali. O que é que se desenhava naquela filigrana de vertigem e liberdade plena, saberiam as aves o sabor do futuro?
Mas o coração de Rita tinha as suas próprias vertigens e os seus voos íntimos. Palpitava com a leveza com que os corações indómitos se abrem às coisas aladas da vida.
Sentia a necessidade de mergulhar na espuma branca, na alvura gregoriana das ondas a quebrarem-se contra as rochas quase eternas, quase gastas, que defendiam a praia e lhe davam um ar de muralha medieval semi-submersa.
O caminho lá para baixo era difícil. Valia a pena, porque a praia quase sempre deserta é duma beleza alegre. Eleva e acalma. Lá as pessoas sensíveis sentem-se bem, como se estivessem em casa depois de terem feito uma longa viagem.
Mas Rita não queria descer. Queria ver o mar.
Do ponto de vista irrecusável das gaivotas. Queria provar o sal da maresia com os pulmões em plenitude, como o órgão da igreja que, em tempos idos, por vezes era tocado por um seminarista melancólico, apaixonado por Bach e com uma preferência especial por enterros. Era raro tocar nos casamentos, mas nunca falhava um enterro. E a música era sempre alegre. O seu rosto é que era o espelho da melancolia.
Rita apaixonara-se por ele. Quando andava na escola secundária. Aquela figura indecisamente loura, envolta em roupas cinzentas vistosamente sóbrias, os olhos azuis, dum azul-escuro quase límpido e umas olheiras levemente acastanhadas, conjugava-se na perfeição com o ambiente rasgado e sem horizontes de utopia em que viviam os adolescentes dessa época. O culminar dessa aproximação foi a forma como Rosário tocou no dia em que o Curt Cobain se suicidou. Dia importante, pois ia a enterrar o pai do médico da terra que, se bem que fosse uma figura esquecida devido aos mais de vinte anos de vida de velho num lar da Arruda dos Vinhos, teve uma missa de corpo presente digna dum rei.
Rosário soube do interesse de Rita pela sua pessoa, uns meses depois. Nunca se tinham falado antes e Rita, com o desassombro duns dezassete anos a fervilhar sonhos e outras febres mais rubras, declarou-se. O rapaz era gago e muito tímido. Ficou vermelho e os olhos, como insectos à procura de saída no vidro duma janela, procuravam uma linha de fuga, percorreram as suas órbitas em todas as direcções até baterem de chapa nos olhos de Rita que, sem razão aparente para isso, apareceram àquela mente escorregadia como dois buraquinhos abertos para o inferno.
A coisa nunca passou destes termos.
E é óbvio que a contemplação do mar nada tinha a ver com aquela paixão apagada há muito. Rita era agora a farmacêutica da terra. Estava casada e tinha um filho de 5 anos.
E era feliz. Sentia-se realizada como mulher, como mãe e como farmacêutica.
Mas, ao mesmo tempo, havia um vazio, ao mesmo tempo doce e triste, na sua vida.
Faltava-lhe algo. Uma pitada de sal, por assim dizer, ou um sabor a canela.
Aos doze anos encontrara, precisamente naquele sítio, uma mulher estranha. Uma mulher que fitava o mar com uma calma e uma doçura quase impossíveis de imaginar, pelo menos por uma criança que se entretinha a espantar a lentidão pardacenta das férias grandes, nos dias em que todos os seus amigos tinham partido de férias e ela era obrigada a ficar na vila porque o seu pai não podia fechar a farmácia, precisamente na época em que os turistas apareciam em força.
-"Vem cá... "-Disse a mulher com uma voz muito serena e com um timbre fresco e suave.- "não tenhas medo. Anda que eu ensino-te a ouvir o mar."
-"Quem é você?" - Rita não estava assustada, apenas surpresa, pois não via carros nas redondezas e a mulher, tanto quanto parecia, não estava alojada da vila que, contudo, distava uns longos 3 quilómetros daquele local. Também não trazia bagagem ou qualquer tipo de saco, mochila ou mala de senhora. E parecia demasiado composta para uma tarde de Verão no pino do calor.
-"Eu?"- A mulher riu-se duma forma muito genuína e gentil. - "Eu gostava de ser a tua fada madrinha!" - O seu rosto acompanhava, com um assomo de simpatia, a expressão de incredulidade que aflorava no rosto de Rita e nos seus gestos à media que ouvia estas palavras.
-"Gostava, mas não sou, por isso fica descansada, eu sou de carne e osso. Chamo-me Helena e tu?"
-"Rita!"
-"Prazer!"- E apertou a mão de Rita com um ar de cerimónia que as fez quebrar em riso.
Sem saber bem porquê Rita sentiu uma grande afinidade com aquela desconhecida. Sentaram-se à beira da falésia, próximo do local onde hoje está o banco onde Rita se sentou. Nesses tempos a câmara municipal ainda não tinha despertado para a exploração turística da região e aquela arriba era quase selvagem. Só se viam dois pescadores lá ao fundo, na ponta oposta da praia, deserta, como de costume.
-"Queres aprender a ouvir o mar?" - Rita acenou afirmativamente, mas não pôde deixar de estranhar a pergunta. De facto o mar era bem audível. Mesmo em sua casa, no centro da vila, por vezes era possível ouvir os estrondos que ecoavam pela noite, vindos dali do fundo. E havia noites medonhas, negras e chuvosas que prendiam as meninas aos lençóis da cama e semavam medos nas esquinas dos quartos de dormir. Por isso Rita achava que conseguia ouvir o mar, mas resolveu calar-se e esperar que a mulher avançasse mais coisas.
-"Tu julgas que ouves o mar. Aliás estás a ouvir agora o barulho das ondas e o vai-e-vem que te adormece a atenção. Mas não é essa a verdadeira voz do mar." - Rita olhou Helena nos olhos fixamente. -"A voz do mar, é um coro, o mar tem muitas vozes que vivem em harmonia. São vozes profundas. Só as podes ouvir aqui."- Helena tocou o centro do peito de Rita e esta estremeceu e sentiu-se invadida por um formigueiro de pirilampos. Aquelas palavras tão desajustadas da realidade tinham um aroma diferente e um sabor a verdade que Rita não conseguia explicar.
Rita era uma aluna excelente. Toda a gente elogiava as suas capacidades , até o seu pai, bondoso mas nada expansivo. Tinha a esperança que Rita lhe sucedesse na gestão da farmácia, mas não via nela as qualidades que segundo ele poderiam vaticinar-lhe um futuro como farmacêutica. Ele sentia que a filha podia ser melhor sucedida em qualquer coisa ligada à literatura, pois escrevia muito bem e tinha uma imaginação fértil e muito ligada ao concreto, capaz de criar situações verosímeis e com fundamentos de realidade. Condimentos que, segundo ele, era necessários a qualquer peça literária digna de mérito. Mas ela escolheu uma via científica e formou-se em farmácia. De forma natural. Como se isso tivesse que ser assim e pronto.
-"O mar é um espaço energético onde muitas criaturas vivem, desde os peixes mais pequenos aos grande cetáceos que, infelizmente, não se aproximam desta costa. Mas há criaturas que não aparecem nos livros de ciências naturais." - Rita estava cada vez mais presa do discurso desta mulher loura, com uns olhos azuis que mais pareciam dois cristais, assentes em duas leves olheiras que lhe traiam a idade, embora parecesse jovem. Rita achou que ela teria pouco mais de 40 anos. As mãos, sem anéis, tinham rugas e nos cantos da boca sobressaíam-lhe umas marcas quase invisíveis que lhe dava um travo de melancolia, embora o seu aspecto geral fosse alegre e muito calmo.
-"No mar há criaturas que nós não conseguimos ver com os olhos de ver o mundo. São espíritos que têm por missão fazer fluir as energias do planeta. Eles sabem que nós estamos aqui e se te concentrares na brisa poderás sentir uma vibração muito fresca."- E Rita sentiu essa vibração, parecia que dentro da brisa havia uma outra brisa mais leve, muito fresca apesar do calor tórrido que se fazia sentir.
Depois Helena falou-lhe da música. De como uma orquestra parecia ter uma só voz feita de muitas vozes. De como o som do órgão conseguia preencher os mais ínfimos espaços das maiores catedrais, tornando o ar muito leve e ao mesmo tempo quase líquido. Assim era a voz do mar. Uma sinfonia de muitas vozes, pois os habitantes das águas, tanto da superfície como das profundezas, têm cada um a sua voz e o mar, visível, as águas do mar, são um som muito especial. E é esse som que contém os peixes, e toda a espécie de fauna e flora marinha.
Rita estava maravilhada. Tudo aquilo fazia sentido, mas ao mesmo tempo era muito estranho.
-"Por vezes é possível ouvir as vozes dentro do rugido do mar. Não é preciso um esforço especial, basta que deixes o som ressoar aqui dentro." - E Helena levou as suas mãos ao peito -"Aqui podes acolher a música mais bela que nós conseguimos experienciar. E há alturas muito especiais em que as vozes dentro da voz do mar chamam pelo nosso nome. Aí ficaremos a saber que a vida tem planos muito importantes para nós e que estamos na véspera do cumprimento dos nossos sonhos mais profundos, na véspera de termos feito as pazes com a vida e com tudo o que somos e que nos rodeia."
Rita não tinha sonhos muito vibrantes. Naquele momento apenas queria ser feliz. E, de facto, nunca viveu a vida com ansiedade, nem conheceu grandes frustrações. O que queria dizer aquela mulher, que se disse Helena, com aquelas palavras?
Esse encontro durou muito pouco. Depois de ter dito aquelas palavras ficou a olhar fixamente Rita nos olhos e beijou-lhe a testa. Levantou-se e começou a caminhar em direcção à estrada principal. Pouco depois desapareceu por trás do canavial e Rita nunca mais a viu. O que queria ela dizer?
Por cima do horizonte tinha-se formado uma linha mais clara que o céu, separando mar e céu. Parecia que tudo aquilo era um cenário de um filme ou duma peça de teatro num palco gigante. Rita concentrou-se nas gaivotas e deixou-se envolver pela brisa que, por instantes, parecia mais fresca.
E ouviu ao longe o seu nome. "Rita, Rita..."
O seu coração deu um salto. Os olhos abriram-se-lhe e concentrou-se no mar. Mas o som vinha das suas costas.
Ao longe, João, o seu marido acenou-lhe e aproximou-se sorridente.
Saiu mais cedo do trabalho e veio à sua procura. Sentou-se junto a ela e deixou-se ficar ali, suspenso duma escuta que não entendia mas que aprendeu a respeitar. No fim de contas aqueles momentos tinham uma beleza especial e os olhos de Rita ficavam acesos como se o mar lhe iluminasse a alma por dentro.

domingo, fevereiro 19, 2006

Jacinto, a flor do mal

"No início do Outono, vieram do Norte uns homens exultantes, tinham derrubado o último bastião de resistência do governo central.
Na nossa capital, Citânia, as pessoas vieram à rua celebrar o dia histórico.
Foi-nos apresentado o nosso novo líder. Era magro, de estatura mediana, com olhos famélicos. Dizia-se que amava os livros e era temido pelas mulheres. Corriam rumores de chacinas e vinganças.
Esse homem outrora tinha trabalhado na biblioteca nacional que servia também como arquivo central. Aí instalou a sede do seu governo.
A tarde do primeiro dia da nova era foi coroada pela exibição das cabeças de vinte antigos funcionários da biblioteca nacional. Foram penduradas em lanças, como as que são usadas pela cavalaria nas marchas militares. Constou nos sussurros dos becos que essas pessoas tinham ousado ver-se promovidas, passando à frente do agora grande líder. Pagaram essa ousadia com a vida e com horas de fel, nas câmaras de tortura acabadas de instalar nas caves do edifício.
À noite foi convocada uma manifestação de regozijo pela vida do nosso grande líder, Irineu Jacinto. Para vitoriar quem foi coroado com um nome de flor, os guardas negros da rectidão distribuíram flores brancas à multidão. E um livro da Sua autoria, pelos menos ostentava o seu nome na capa. Era um livro de ficção. Contava a história dum palhaço triste que tinha conseguido transformar-se em domador de leões. E no fim da história o domador de leões salva o circo da falência ao despedir os palhaços.
O povo festejou com gritos de ordem que arranhavam as gargantas. O silêncio seria um punhal, ou daria acesso aos confins da dor infinita. À entrada da sede do governo, mesmo por baixo da varanda de onde o líder discursou, estavam montadas vinte peças de artilharia ligeira, viradas para a multidão. Dir-se-ia que os canos das armas eram de prata, tal o fulgor com que reflectiam a luz dos holofotes.
No frio da noite ecoaram palavras como "fraternidade", "autoridade", "felicidade". Tinha chegado a era da plenitude. Por fim a sociedade seria capaz de dar a cada indivíduo tudo o que é humanamente necessário para viver. Trabalho. Fidelidade ao grande pai, o Estado. Cada um receberia instruções claras sobre o que fazer. Onde trabalhar. Com quem casar. Quantos filhos teria que ter. Quando morrer. Tudo em nome da nova ordem. E o grande líder zelaria para que nada faltasse aos seus queridos irmãos, dando a cada um instruções e determinações.
Por toda a cidade, e enquanto se ouviam por todo o lado as palavras de chumbo do nosso grande líder, soldados de rosto austero disparavam sobre todos os vultos que cruzavam as ruas. Entravam nas casas onde se visse luz. Metralhavam quem ousasse não estar na manifestação de júbilo. Velhos acamados. Bebés recém-nascidos. Mulheres. Vermes que se tinham posto à margem da redenção final.
Durante dias o fumo negro pairava sobre a cidade, espalhava-se pelos campos, invadia os pulmões com um aroma adocicado. Tudo o que tivesse a marca da ilusão deveria ser purificado pelas chamas. Ao fim de alguns dias a figura curvada e sombria de Irineu Jacinto tinha-se tornado demasiado grande para ser contada entre os mortais. No centro da capital, onde se erguia uma igreja milenar, foi construído um templo em honra do pai da nação. Milhares de operários levantaram em menos de um mês uma estrutura em aço. No seu centro um retrato de Sua Sumidade acenava aos seus adoradores, curvados num louvor mudo.
Nesse ano a Primavera passou longe dos nossos campos. A neve cinzenta cobriu as planícies até quase ao despontar do Verão. Em honra do líder todos tinham que ter um vaso de flores nas sacadas. Muita gente morreu, derrotada pela geada inclemente.
Hoje olho-me ao espelho e vejo, no fantasma que me olha fixamente, as feições do nosso líder. Todas as pessoas se parecem cada vez mais com ele. O nariz de matemático, a fronte decidida e o queixo de quem sabe tudo. Queria vestir o meu melhor fato, mas no manual de bem parecer é-nos aconselhada a sobriedade e a humildade no trajar. Vejo se tenho dinheiro suficiente para comprar uma rosa branca para pôr na lapela. A corola tem que ter exactamente cinco centímetros de diâmetro, em honra das cinco virtudes. Lá fora um carro da polícia dos costumes espera-me. Chegou a minha vez. Tenho mais sete centímetros de estatura do que o nosso Salvador. Tal como os milhares que já foram confrontados com a irrefutável verdade da sua não conformidade, também eu tenho que comparecer perante os sábios juízes. Agora já não cortam as pernas aos que não podem pertencer à nova ordem. Isso estava a aumentar de forma incontrolável os dependentes. Sei que hoje já não verei o despontar da primeira estrela. A esta hora o meu nome já estará a ser rasurado dos registos do Estado. Como me chamo Manuel Rosa, vou poder cumprir o meu dever sem dor. Um dos anciãos do futuro dar-me-á a beber um líquido com o aroma desconcertante das amêndoas amargas."