contos sem conta

Tudo cabe num conto. Tudo se conta. Menos o que não faz de conta. Porque a vida só contável é que se torna credível. Ganha vida. A vida sem vida não se conta, desconta-se. E o acto de descontar muitas vezes é um fazer de conta. Por vezes faço de conta que não sou eu. E quando sou eu não conto. E quando conto não sei o que fazer do eu. Há tanto infinito para abraçar...

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Eu sou, eu quero ser, o que não se resume a um eu. Quero ser o que se me der. Se o mar vier até mim, quero ser o mar. Se o vento me vier animar por dentro, quero ser o vento. Se o verde das serras me presentear com os seus aromas de rosmaninho e de sarça ardente, quero ser cada uma das serras... E quero conseguir deixar sempre o ego pendurado no armário das coisas inúteis. Serve para quê? Para separar, para colocar pontos finais, margens sem nexo, na vida que, no seu âmago, não tem limites.

segunda-feira, fevereiro 20, 2006

Rita e a voz do mar

Rita, nome fictício, como são todos os nomes antes de se ancorarem na carne de quem os recebe, estava sentada à beira da falésia. Seguia o voo das gaivotas com o olhar límpido, perdido além do tempo e do espaço de estar ali. O que é que se desenhava naquela filigrana de vertigem e liberdade plena, saberiam as aves o sabor do futuro?
Mas o coração de Rita tinha as suas próprias vertigens e os seus voos íntimos. Palpitava com a leveza com que os corações indómitos se abrem às coisas aladas da vida.
Sentia a necessidade de mergulhar na espuma branca, na alvura gregoriana das ondas a quebrarem-se contra as rochas quase eternas, quase gastas, que defendiam a praia e lhe davam um ar de muralha medieval semi-submersa.
O caminho lá para baixo era difícil. Valia a pena, porque a praia quase sempre deserta é duma beleza alegre. Eleva e acalma. Lá as pessoas sensíveis sentem-se bem, como se estivessem em casa depois de terem feito uma longa viagem.
Mas Rita não queria descer. Queria ver o mar.
Do ponto de vista irrecusável das gaivotas. Queria provar o sal da maresia com os pulmões em plenitude, como o órgão da igreja que, em tempos idos, por vezes era tocado por um seminarista melancólico, apaixonado por Bach e com uma preferência especial por enterros. Era raro tocar nos casamentos, mas nunca falhava um enterro. E a música era sempre alegre. O seu rosto é que era o espelho da melancolia.
Rita apaixonara-se por ele. Quando andava na escola secundária. Aquela figura indecisamente loura, envolta em roupas cinzentas vistosamente sóbrias, os olhos azuis, dum azul-escuro quase límpido e umas olheiras levemente acastanhadas, conjugava-se na perfeição com o ambiente rasgado e sem horizontes de utopia em que viviam os adolescentes dessa época. O culminar dessa aproximação foi a forma como Rosário tocou no dia em que o Curt Cobain se suicidou. Dia importante, pois ia a enterrar o pai do médico da terra que, se bem que fosse uma figura esquecida devido aos mais de vinte anos de vida de velho num lar da Arruda dos Vinhos, teve uma missa de corpo presente digna dum rei.
Rosário soube do interesse de Rita pela sua pessoa, uns meses depois. Nunca se tinham falado antes e Rita, com o desassombro duns dezassete anos a fervilhar sonhos e outras febres mais rubras, declarou-se. O rapaz era gago e muito tímido. Ficou vermelho e os olhos, como insectos à procura de saída no vidro duma janela, procuravam uma linha de fuga, percorreram as suas órbitas em todas as direcções até baterem de chapa nos olhos de Rita que, sem razão aparente para isso, apareceram àquela mente escorregadia como dois buraquinhos abertos para o inferno.
A coisa nunca passou destes termos.
E é óbvio que a contemplação do mar nada tinha a ver com aquela paixão apagada há muito. Rita era agora a farmacêutica da terra. Estava casada e tinha um filho de 5 anos.
E era feliz. Sentia-se realizada como mulher, como mãe e como farmacêutica.
Mas, ao mesmo tempo, havia um vazio, ao mesmo tempo doce e triste, na sua vida.
Faltava-lhe algo. Uma pitada de sal, por assim dizer, ou um sabor a canela.
Aos doze anos encontrara, precisamente naquele sítio, uma mulher estranha. Uma mulher que fitava o mar com uma calma e uma doçura quase impossíveis de imaginar, pelo menos por uma criança que se entretinha a espantar a lentidão pardacenta das férias grandes, nos dias em que todos os seus amigos tinham partido de férias e ela era obrigada a ficar na vila porque o seu pai não podia fechar a farmácia, precisamente na época em que os turistas apareciam em força.
-"Vem cá... "-Disse a mulher com uma voz muito serena e com um timbre fresco e suave.- "não tenhas medo. Anda que eu ensino-te a ouvir o mar."
-"Quem é você?" - Rita não estava assustada, apenas surpresa, pois não via carros nas redondezas e a mulher, tanto quanto parecia, não estava alojada da vila que, contudo, distava uns longos 3 quilómetros daquele local. Também não trazia bagagem ou qualquer tipo de saco, mochila ou mala de senhora. E parecia demasiado composta para uma tarde de Verão no pino do calor.
-"Eu?"- A mulher riu-se duma forma muito genuína e gentil. - "Eu gostava de ser a tua fada madrinha!" - O seu rosto acompanhava, com um assomo de simpatia, a expressão de incredulidade que aflorava no rosto de Rita e nos seus gestos à media que ouvia estas palavras.
-"Gostava, mas não sou, por isso fica descansada, eu sou de carne e osso. Chamo-me Helena e tu?"
-"Rita!"
-"Prazer!"- E apertou a mão de Rita com um ar de cerimónia que as fez quebrar em riso.
Sem saber bem porquê Rita sentiu uma grande afinidade com aquela desconhecida. Sentaram-se à beira da falésia, próximo do local onde hoje está o banco onde Rita se sentou. Nesses tempos a câmara municipal ainda não tinha despertado para a exploração turística da região e aquela arriba era quase selvagem. Só se viam dois pescadores lá ao fundo, na ponta oposta da praia, deserta, como de costume.
-"Queres aprender a ouvir o mar?" - Rita acenou afirmativamente, mas não pôde deixar de estranhar a pergunta. De facto o mar era bem audível. Mesmo em sua casa, no centro da vila, por vezes era possível ouvir os estrondos que ecoavam pela noite, vindos dali do fundo. E havia noites medonhas, negras e chuvosas que prendiam as meninas aos lençóis da cama e semavam medos nas esquinas dos quartos de dormir. Por isso Rita achava que conseguia ouvir o mar, mas resolveu calar-se e esperar que a mulher avançasse mais coisas.
-"Tu julgas que ouves o mar. Aliás estás a ouvir agora o barulho das ondas e o vai-e-vem que te adormece a atenção. Mas não é essa a verdadeira voz do mar." - Rita olhou Helena nos olhos fixamente. -"A voz do mar, é um coro, o mar tem muitas vozes que vivem em harmonia. São vozes profundas. Só as podes ouvir aqui."- Helena tocou o centro do peito de Rita e esta estremeceu e sentiu-se invadida por um formigueiro de pirilampos. Aquelas palavras tão desajustadas da realidade tinham um aroma diferente e um sabor a verdade que Rita não conseguia explicar.
Rita era uma aluna excelente. Toda a gente elogiava as suas capacidades , até o seu pai, bondoso mas nada expansivo. Tinha a esperança que Rita lhe sucedesse na gestão da farmácia, mas não via nela as qualidades que segundo ele poderiam vaticinar-lhe um futuro como farmacêutica. Ele sentia que a filha podia ser melhor sucedida em qualquer coisa ligada à literatura, pois escrevia muito bem e tinha uma imaginação fértil e muito ligada ao concreto, capaz de criar situações verosímeis e com fundamentos de realidade. Condimentos que, segundo ele, era necessários a qualquer peça literária digna de mérito. Mas ela escolheu uma via científica e formou-se em farmácia. De forma natural. Como se isso tivesse que ser assim e pronto.
-"O mar é um espaço energético onde muitas criaturas vivem, desde os peixes mais pequenos aos grande cetáceos que, infelizmente, não se aproximam desta costa. Mas há criaturas que não aparecem nos livros de ciências naturais." - Rita estava cada vez mais presa do discurso desta mulher loura, com uns olhos azuis que mais pareciam dois cristais, assentes em duas leves olheiras que lhe traiam a idade, embora parecesse jovem. Rita achou que ela teria pouco mais de 40 anos. As mãos, sem anéis, tinham rugas e nos cantos da boca sobressaíam-lhe umas marcas quase invisíveis que lhe dava um travo de melancolia, embora o seu aspecto geral fosse alegre e muito calmo.
-"No mar há criaturas que nós não conseguimos ver com os olhos de ver o mundo. São espíritos que têm por missão fazer fluir as energias do planeta. Eles sabem que nós estamos aqui e se te concentrares na brisa poderás sentir uma vibração muito fresca."- E Rita sentiu essa vibração, parecia que dentro da brisa havia uma outra brisa mais leve, muito fresca apesar do calor tórrido que se fazia sentir.
Depois Helena falou-lhe da música. De como uma orquestra parecia ter uma só voz feita de muitas vozes. De como o som do órgão conseguia preencher os mais ínfimos espaços das maiores catedrais, tornando o ar muito leve e ao mesmo tempo quase líquido. Assim era a voz do mar. Uma sinfonia de muitas vozes, pois os habitantes das águas, tanto da superfície como das profundezas, têm cada um a sua voz e o mar, visível, as águas do mar, são um som muito especial. E é esse som que contém os peixes, e toda a espécie de fauna e flora marinha.
Rita estava maravilhada. Tudo aquilo fazia sentido, mas ao mesmo tempo era muito estranho.
-"Por vezes é possível ouvir as vozes dentro do rugido do mar. Não é preciso um esforço especial, basta que deixes o som ressoar aqui dentro." - E Helena levou as suas mãos ao peito -"Aqui podes acolher a música mais bela que nós conseguimos experienciar. E há alturas muito especiais em que as vozes dentro da voz do mar chamam pelo nosso nome. Aí ficaremos a saber que a vida tem planos muito importantes para nós e que estamos na véspera do cumprimento dos nossos sonhos mais profundos, na véspera de termos feito as pazes com a vida e com tudo o que somos e que nos rodeia."
Rita não tinha sonhos muito vibrantes. Naquele momento apenas queria ser feliz. E, de facto, nunca viveu a vida com ansiedade, nem conheceu grandes frustrações. O que queria dizer aquela mulher, que se disse Helena, com aquelas palavras?
Esse encontro durou muito pouco. Depois de ter dito aquelas palavras ficou a olhar fixamente Rita nos olhos e beijou-lhe a testa. Levantou-se e começou a caminhar em direcção à estrada principal. Pouco depois desapareceu por trás do canavial e Rita nunca mais a viu. O que queria ela dizer?
Por cima do horizonte tinha-se formado uma linha mais clara que o céu, separando mar e céu. Parecia que tudo aquilo era um cenário de um filme ou duma peça de teatro num palco gigante. Rita concentrou-se nas gaivotas e deixou-se envolver pela brisa que, por instantes, parecia mais fresca.
E ouviu ao longe o seu nome. "Rita, Rita..."
O seu coração deu um salto. Os olhos abriram-se-lhe e concentrou-se no mar. Mas o som vinha das suas costas.
Ao longe, João, o seu marido acenou-lhe e aproximou-se sorridente.
Saiu mais cedo do trabalho e veio à sua procura. Sentou-se junto a ela e deixou-se ficar ali, suspenso duma escuta que não entendia mas que aprendeu a respeitar. No fim de contas aqueles momentos tinham uma beleza especial e os olhos de Rita ficavam acesos como se o mar lhe iluminasse a alma por dentro.

1 Comments:

Blogger LEIA SILAS Literatura Contemporânea said...

Olá Paulo Feitais, belo blogue
Parabéns
TB escrevo contos
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Abraços
Silas

1:50 da manhã  

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